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‘Deixei o dread e ninguém sentava do meu lado’, diz Marcelo Falcão

Para Falcão, os casos de racismo são absurdos, mas acontecem a todo instante por aqui. Muitos, ou melhor, a maioria deles, não são veiculados

Atento aos problemas sociais e acostumado a transformar as principais feridas e mazelas da sociedade em música há pelo menos 25 anos, o cantor Marcelo Falcão, 47, se diz atônito às ondas racistas que têm afligido o Brasil e o mundo nas últimas semanas.

 Desde que um policial branco se ajoelhou no pescoço de George Floyd, um homem negro e algemado nos Estados Unidos [no dia 25 de maio em Minnesota], o planeta inteiro começou a olhar para a questão do racismo. No Brasil, isso também aconteceu. Na opinião de Falcão, porém, falta união aos brasileiros com relação a essa questão para que a luta antirracista vire algo rotineiro.

“Precisamos ver a morte de Floyd para olhar para o nosso problema, que existe desde os tempos de Dom Pedro 2°. Sempre temos de ver o que acontece lá fora para virar o foco aqui para dentro. A gente só não está melhor porque é desunido. Com união viraríamos a história”, diz o cantor.

Para Falcão, os casos de racismo são absurdos, mas acontecem a todo instante por aqui. Muitos, ou melhor, a maioria deles, não são veiculados. Nascido e criado na comunidade do Engenho Novo, no Rio de Janeiro, o músico sabe bem o que é sofrer na pele o desrespeito e a discriminação.

“No Engenho Novo tem comandos de favelas inimigas que guerreiam entre elas. Meu comando é o da música”, explica Falcão, ao rememorar um caso que aconteceu com ele na adolescência antes de integrar O Rappa, banda que ficou por 25 anos. “Se eu for no Engenho Novo vou tomar dura, vão me revistar, sempre foi assim. Deixei o dread crescer e ninguém sentava do meu lado no ônibus. Colocavam bolsa no banco, mas não sentavam do meu lado.”

A discriminação e o desrespeito com quem é periférico foram coisas com as quais Falcão acabou se acostumando. “Desde que sou nascido e criado vejo as facções, polícia deixando as coisas mais difíceis, às vezes. O racismo no país é estrutural, é conveniente. Tem sempre alguém para subjugar o outro. São várias vozes solitárias soltas”, reflete.PATERNIDADE E NOVO DISCO

Enquanto os shows com público não podem acontecer, Falcão fica em casa. A quarentena aflorou o lado pai de Marcelo Falcão. Em casa diariamente com Tom, de um ano e quatro meses, ele acaba por descobrir a cada dia um mundo novo. Mas nada que o faça pirar. Pelo contrário.

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“Se ele tivesse nascido anos atrás eu seria o pai dele de segunda, terça e quarta. Já seria excelente porque eu estaria trabalhando para levar a ele o sustento. Mas Deus me deu o presente que é saborear a vida dele. Desde que deixei O Rappa e embarquei na carreira solo [desde 2019 com disco “Viver”], queria fazer shows só de sexta e sábado para poder curtir o Tom”, diz.

Com a pandemia do novo coronavírus a paternidade se multiplicou por mil. “Na quarentena você tem o entendimento total. Hoje dou mais valor às coisas que meus pais falavam. Tom começou a andar, é inteligente, repete tudo, cheio de saúde. Mas ficar com criança cheia de energia em casa é casca-grossa”, diverte-se.

A quarentena também tem servido para que Falcão componha. Ele já está em uma fase adiantada da produção e seleção das músicas para seu novo disco, programado para chegar no início de 2021.”Me ligando no que está rolando no mundo, comecei a pegar papel e caneta e voltei com o compromisso de compor. Tenho um disco de dez singles para fazer com participações, inclusive. Acredito que devo mostrar uma música a cada 40 ou 50 dias ao público. Até lançar por volta do Carnaval do ano que vem”, almeja.

Fonte
Notícias ao Minuto

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