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V-Meu pai comprou um terreno. Nascia um agricultor familiar socioambientalista apaixonado e voluntário  (Quinta e última parte)

Os porquinhos engordados e vendidos, rendiam um dinheirinho extra, mas quem pensar que isso foi a solução, enganou-se, porque o orçamento doméstico, apesar de tudo, continuava debilitado, como sempre!! Solução: plantar abacaxis!!

Sei lá de onde, meu pai arrumou um montão de mudas de pés de abacaxi e plantamos tudinho, manualmente, sem nenhuma adubação química. O problema foi quando os frutos começaram a amadurecer. Fomos informados que cada fruta deveria ser envolvida por uma folha de jornal, para o amadurecimento ser por igual.

Porém, naquela época, ainda não existia o abacaxi sem espinho, e nós, assim mesmo, envolvemos manualmente, uma a uma, todas as frutas. Nossas mãos ficaram tão inchadas pelas espetadas dos espinhos que mais pareciam patas de elefante. Que trabalheira, todavia, que alegria!!
Por que não usamos luvas grossas?
Porque elas atrapalhavam o manuseio das folhas de jornal. Simples!! 

Deu muito abacaxi. Vendemos todos para a sorveteria Milkher. Levei a produção no trator. Repetimos a dose no ano seguinte e desistimos. Não valia tanto sacrifício. E meu pai resolveu plantar cebolas, e “quebramos a cara“. Então, talvez fosse melhor plantar alho, e plantamos, e quebramos a cara. Experimentamos feijão, depois amendoim, também não valeram a pena. Conseguimos vender algumas laranjas, mas eram poucas, preferimos chupá-las. 

Como dinheirinho garantido mesmo, era somente com os porquinhos engordados e vendidos. Assim, fui efetivado naturalmente, como lavageiro oficial da paróquia“. 

Aproveito a oportunidade para homenagear “in memoriam” o magnífico escritor brasileiro, José Mauro de Vasconcelos, e seu famosíssimo livro: “Meu pé de laranja lima“, porque também tive o prazer de ter como amigo, meu próprio pé de laranja lima (agora, laranja-da-ilha). 

Sentar-me à sua sombra, olhar para as nuvens, imaginar um monte de coisas, e principalmente, chupar muitas laranjas-da-ilha, até a barriga fazer “glu-glu-glu“, era meu passatempo favorito. Ah!! Tempos que não voltam mais…Mas, continuo chupando muitas laranjas-da-ilha, até a barriga sexagenária fazer glu-glu-glu.

Creio que fiz também, algumas travessuras parecidas com aquelas do personagem Zezé. Afinal, sensibilidade e perspicácia nunca me faltaram.

A necessidade faz o sapo pular” preconiza o ditado popular, e este ditado é a mais pura verdade!!! Se existiu um sapinho pulador, acionado pelas necessidades de sobrevivência, esse foi meu pai… e eu testemunhei muitas coisas. Mas, por favor, não confundam “pulo do sapo“, com “pulo do gato. 

O pulo do gato é a expressão usada para se referir a um segredo, truque ou explicação, do sucesso ou da solução de alguma coisa. O pulo do gato pode significar alguma ação, característica ou experiência que faz alguém se destacar em meio às outras. Também pode ser uma referência a uma atitude de esperteza, de alguém que encontrou um jeito de escapar de uma situação muito complicada. 

Embora as necessidades financeiras fizessem meu pai procurar algo inovador, com um pulo de gato descente, para poder sobreviver dignamente, sem espertezas e sem vantagens desonestas; tais iniciativas acabavam se transformando no pulo do sapo, porque, embora surgissem da necessidade de reforçar o orçamento doméstico sempre debilitado, acabavam dando com “os burros nágua” (ou seria sapos nágua??!!), e exigiam outro pulo logo em seguida, e aí, talvez, quem sabe, aquele do gato. 

Eu informei anteriormente que, aos 8 anos de idade, ele tinha sido nomeado “o chefe da casa” pelo meu avô paterno, no leito de morte, quando recebeu a primeira missão: cuidar da mãe e de toda família. E o histórico dos primeiros “pulos”, para suprir as necessidades decorrentes, já relatei na “terceira parte” destas crônicas. 

Também relatei anteriormente que, além de minha mãe e os 4 filhos, a fortuidade da vida fez com que ele ficasse responsável pelos cuidados e criação de 12 sobrinhos, e suas respectivas mães. Aqui, o tio Tunim, seu irmão “caçula”, ajudou muito!! E pularam juntos… Penso que na verdade, foi o “Samba do crioulo doido“. 

O histórico mais recente dos incríveis “pulos”, dos quais participei como “girino pulador“, para suprir as necessidades recorrentes, pretendo contar agora. Lembrem-se de que na “terceira parte” destas crônicas, escrevi: “-Sei lá em que ano seguinte, as laranjeiras e limoeiros anunciaram a primeira produção de frutas, foi quando meu pai resolveu “engordar porco”. Sim, isso mesmo, criar e engordar porcos rústicos, para reforçar o orçamento doméstico que andava bem debilitado“. 

Parecia um mantra: “Reforçar o orçamento doméstico que andava debilitado“. Repete…Repete…Repete…Porque, na verdade, o orçamento doméstico sempre esteve debilitado, e a necessidade fazia o sapo pular, mas pular pra valer, sem tréguas.
E, o sapo levava cada tombo…Porém, desistir, jamais… 

Lá no início da crônica, sobre as atividades na “chácara”, escrevi:
-Deu muito abacaxi. Vendemos para a sorveteria Milkher. Levei a produção de trator. Repetimos a dose no ano seguinte e desistimos. Não valia tanto sacrifício. E meu pai resolveu plantar cebolas, e plantamos e quebramos a cara. Então, talvez fosse melhor plantar alho, e plantamos, e quebramos a cara. Experimentamos feijão, depois amendoim, também não valeram a pena. Conseguimos vender algumas laranjas, mas era pouco e preferimos chupá-las. Dinheirinho garantido mesmo, era somente com os porquinhos. 

Também escrevi anteriormente, que, nas horas vagas, minha mãe fazia tricô manualmente, para ” reforçar o orçamento doméstico que andava debilitado”. Todavia, rendia muito pouco e mal dava para suprir as próprias necessidades pessoais. Horas e horas tricotando, por uma “graninha” tão curtinha. Contudo era o que havia. Melhor que nada. 

Curiosamente, ela jamais abandonou este hábito, e mesmo quando pudemos dar-lhe uma vida mais confortável, ela continuou tricotando, por puro diletantismo e também para praticar a caridade. Mãe de mãos abençoadas… Louvadas sejam…Missão cumprida… 

Testemunhei e participei (pulando junto), dos seguintes “pulos do sapo“, em suas tentativas de “reforçar o orçamento doméstico que andava debilitado“:
Produção caseira, manuseio, embalagem e venda de “Beijus”;
Produção caseira, manuseio, embalagem e venda de “Pipoca Japonesa”;
Comercialização de bananas vindas do litoral;
Produção e comercialização de Raspinhas, que eram sorvetes obtidos de gelo raspado, e posteriormente, adocicados com licores apropriados;
Bar no Clube de Campo das Figueiras;
Depósito e distribuição de pães na cidade, e comercialização de enlatados e embalados, nas fazendas do entorno da cidade; 

Considerando que, cada uma destas atividades foi uma verdadeira epopeia doméstica, porém, sempre com um toque de bom humor, então pretendo escrever uma crônica para cada uma delas.
Hoje, começaremos com:
Produção caseira, manuseio, embalagem e venda de Beijus“.

Beiju, na minha cidade natal diz-se “Biju, é uma iguaria tipicamente brasileira de origem indígena feita com a tapioca, que é a fécula extraída da mandioca. Ao ser espalhada em uma chapa metálica aquecida, coagula-se naturalmente, e obtém-se uma panqueca.

Se prensada entre duas chapas metálicas quentes, vira crepe seco. Na forma de panqueca, pode-se recheá-la com coco, queijo coalho ou outros. Na forma de crepe seco, pode-se adoçar e colorir a massa, e fazê-la aderir em torno de uma forma cônica de madeira, dando-se ao produto final, o formato de um funil de paredes finas, bem alongado, ou seja, Beiju, para nós, Biju. 

Quem vai vender Biju pela cidade??!!
Eu me candidatei voluntária e prontamente.
Mas não me foi possível!!
A vasilha que conteria os Bijus, o porta-bijus, além de ser pesada, era quase do meu tamanho. 

Era um grande cilindro de folha-de-zinco, com aproximadamente 0,5m de diâmetro e 1,15m de altura, com instalações internas de madeira compensada vazada, para acondicionar os Bijus, e evitar a quebra.
Ah!! Tinha o apito característico, que toda molecada da época conhecia:
Firuliiii… Firulóóó…”. “Firuliiii… Firulóóó…”. “Firuliiii… Firulóóó…“. 

Solução: O Dito (Benedito), conhecido de meu pai.
Este tal Benedito, conhecido por Dito ou Ditinho, era um morador de Porto Ferreira, que andava pela cidade, pedindo um “ajutoriozinho” para todo mundo. Pessoa absolutamente pacífica, mas que adorava transformar os “ajutórios” em uns golinhos de cachaça.

Desculpem-me, mas acabo de lembrar-me da recente frase hilária do papa: -Brasileiro não tem salvação. Muita cachaça e pouca oração“. 

Meu pai, então, querendo unir a necessidade de um vendedor adulto de Bijus, com a possibilidade de fazer o bem, recuperando alguém, através do trabalho honesto, propôs uma sociedade ao Dito, assim: ele forneceria os Bijus e o Dito os venderia, e rachariam o arrecadação em 50% para cada um. 

Seo João e D. Edna, à noite, preparam um bom lote de Bijus na chapa quente (eu comi os que quebraram antes de serem embalados), e no dia seguinte, logo pela manhã, lá se foi o Dito, para o primeiro dia de trabalho. “Firuliiii… Firulóóó…”. “Firuliiii… Firulóóó…”. 

À tardinha, o Dito não apareceu para o acerto de contas. E descobrimos o que tinha acontecido: o Dito tinha ficado com o dinheiro das vendas, comido os Bijus que restaram, jogado o porta-bijus num terreno baldio da cidade, e sumido do mapa. Diziam que ele tinha uns parentes aqui em Minas. Só tornaríamos a ver o Dito, muito tempo depois, quando ele reapareceu, pedindo um “ajutoriozinho“, com a maior “cara-de-pau. 

E assim, com esta matéria, encerramos a série de cinco crônicas:
Meu pai comprou um terreno. Nascia um agricultor familiar socioambientalista apaixonado e voluntário“.

Porém, nesta mesma matéria, já iniciamos um novo tema, que denominaremos:
A necessidade faz o sapo pular“. 

Portanto, vem aí, a segunda crônica: “Produção caseira, manuseio, embalagem e venda de Pipoca Japonesa“, sobre o novo tema.

 

Na próxima semana, continuaremos o assunto. Aguardem!!

Acredito em intuições e inspirações. Às vezes sinto que estou certo. Não sei se estou”.
Albert Einstein.

 (Acessem as crônicas anteriores, clicando na franja “Blogs e Colunas”, acima do título da matéria atual. Em seguida, pode-se clicar na franja “Próxima página >”, no rodapé da página aberta, para continuar acessando-se mais crônicas anteriores).

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